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Navegação autónoma baseada no Espaço

O uso de tecnologias espaciais vai contribuir para a autonomização e digitalização do setor naval, levando o tráfego marítimo até ao próximo nível. 

© Rolls-Royce Plc.

A travessia entre a Horta, na ilha do Faial, e a Madalena, na ilha do Pico, através de um canal com pouco mais de oito quilómetros de largura no meio do Oceano Atlântico, demora cerca de 30 minutos em dias de mar chão. A ausência de obstáculos significativos faz do canal o local ideal para a realização dos primeiros testes com veículos autónomos em Portugal. A combinação de Inteligência Artificial e dados de satélite torna possível a ligação entre as duas ilhas açorianas em navios não tripulados, usando as melhores rotas, de acordo com as condições atmosféricas, poupando tempo, combustível e garantido a ligação mais eficiente em termos económicos e ambientais.

Ainda há um longo caminho a percorrer para que o cenário descrito seja realidade, mas os últimos desenvolvimentos demonstram que a utilização de navios não tripulados poderá ser um facto consumado mais rapidamente do que os carros autónomos.

Em 2019, uma joint venture entre a Rolls-Royce (entretanto integrada na Kongsberg) e a Finferries, operador público de ferries na Finlândia, apresentou o primeiro navio autónomo, realizando a viagem de cerca de dois quilómetros entre Parainen e Nauvo, na Finlândia, usando um sistema de controlo remoto.

Um navio sem tripulação, em que Inteligência Artificial (IA), algoritmos inteligentes, e dados de satélite são usados para otimizar rotas e minimizar o consumo de combustível resultarão em ganhos significativos para o sector marítimo e para o comércio internacional. No essencial, o transporte marítimo autónomo representa redução de custos, maior fiabilidade e eficiência. Ao mesmo tempo, a utilização de tripulações que comandam os navios de forma remota exige que os tradicionais marinheiros se reinventem e repensem as suas tarefas, já que as pessoas deixaram de ser necessárias para cumprir tarefas arriscadas e repetitivas.

Navegação Autónoma, o que é?

Embarcações operadas sem (até certa medida) intervenção humana

Algoritmos analisam a rota e fornecem apoio à decisão das tripulações. A automatização é apenas um auxiliar.

Navios com tripulação a bordo, mas controlados remotamente por operadores noutro local.

Embarcações operadas à distância e sem marinheiros a bordo.

Embarcações totalmente autónomas, operadas por computadores de bordo que tomam decisões sem intervenção humana.

© ESA

Trabalhar com mais segurança

Outra dimensão da navegação autónoma está relacionada com o aumento da segurança. A utilização de tecnologias espaciais para analisar e implementar serviços de navegação autónoma e telecomandada pode reduzir a possibilidade de erro humano, ao mesmo tempo que permite às tripulações concentrarem-se em tarefas mais úteis. Com 75% a 96% dos acidentes no mar causados por erro humano, segundo um estudo da seguradora Allianz, os navios não tripulados serão mais fiáveis, já que estarão menos sujeitos aos erros de navegação das tripulações.

A tecnologia e dados espaciais são cruciais para a automação dos navios. Embarcações sem tripulações precisam de sistemas de comunicação, serviços de navegação e de Observação da Terra e informação associada para navegarem os mares. Exemplos? Os serviços de GNSS (Global Navigation Satellite System) serão essenciais para garantir uma ligação constante entre o navio e o centro de controle, para que a posição da embarcação, bem como a sua performance, seja conhecida a cada momento. Ao mesmo tempo, sabendo a localização exata do navio, o centro de controle pode verificar se todas as decisões do sistema de controlo da embarcação estão de acordo com as regras.

A iniciativa Space for 5G (S45G) da ESA, que apoia evoluções tecnológicas e as cadeias de abastecimento necessárias para desenvolver serviços terrestres e espaciais, será fundamental para integrar a tecnologia espacial e os serviços terrestres de 5G também no setor naval e do transporte marítimo. O objetivo é estudar de que forma se podem aplicar serviços e tecnologia espacial à navegação autónoma, como seja a localização por satélite, dados de Observação da Terra e serviços de SatCom para reforçar a conectividade a bordo. 

A nível económico as consequências da navegação autónoma começam a sentir-se no momento de construção dos navios, que exigirão um nível de investimento muito inferior, já que a ausência de tripulações, elimina a necessidade de alojamento e instalações para trabalhadores. Da mesma forma, os gastos operacionais irão diminuir porque se reduzem os custos de mão-de-obra, mas também porque a otimização das rotas, possível devido ao uso de dados espaciais e inteligência artificial será sinónimo a menores gastos em combustíveis e menores tempos de viagens.

Neste caso, a equação vai considerar o uso de dados de satélite, Big Data e a Internet das Coisas (IoT) para otimizar rotas, que serão igualmente mais seguras, uma vez que a inteligência artificial liga informações meteorológicas e movimentos de tráfego.