Sistema Galileo ganha dois novos satélites

Na madrugada de 17 de dezembro, dois novos satélites Galileo serão lançados a bordo de um foguetão Ariane 6, reforçando a constelação europeia; embora sem fabrico nacional nestas unidades, o programa conta com contributos portugueses na operação, teste e evolução do sistema

O dia a dia de todos nós desenha-se, cada vez mais, sobre uma camada invisível de sinais que vêm do espaço e nos ajudam a encontrar o caminho, a encomendar uma refeição em casa, a fazer pagamentos, a gerir frotas, a sincronizar redes que fazem funcionar as comunicações e a garantir ligações elétricas. No centro desta infraestrutura silenciosa está o Galileo, sistema europeu global de navegação por satélite, que assegura serviços de posicionamento, navegação e tempo. A partir desta constelação, a União Europeia garante uma parte crescente destes serviços, dos quais mais de quatro mil milhões de utilizadores em todo o mundo beneficiam, direta ou indiretamente.

Na próxima madrugada, dois novos satélites Galileo serão lançados a bordo de um foguetão Ariane 6 a partir do Porto Espacial Europeu, na Guiana Francesa, reforçando a constelação do sistema europeu de navegação por satélite. O lançamento, designado VA266, corresponde ao 14.º lançamento operacional do Galileo e será o primeiro a utilizar o Ariane 6, o que consolida o papel do novo lançador europeu no apoio aos grandes programas espaciais da União Europeia.

Os satélites SAT 33 e SAT 34, construídos pela empresa europeia OHB, em Bremen, irão juntar-se à constelação em órbita terrestre média, a cerca de 23 mil quilómetros, reforçando a capacidade da constelação, acrescentando margens de redundância que aumentam a precisão, a disponibilidade e a robustez do serviço. Em termos práticos, significam um sistema mais resiliente, com maior capacidade de garantir a continuidade do sinal à escala global.

O Galileo é o sistema global de navegação por satélite da União Europeia (UE), que funciona em paralelo ao GPS (EUA), ao GLONASS (Rússia) e ao BeiDou (China). Programa emblemático da União Europeia, o Galileo assenta numa governação partilhada entre a Comissão Europeia (CE), a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Agência da União Europeia para o Programa Espacial (EUSPA). A Comissão Europeia define as prioridades políticas, programáticas e orçamentais e traça a evolução estratégica dos programas; a ESA transforma essas orientações em satélites, sistemas de terra e campanhas de lançamento; e a EUSPA assegura que tudo se traduz em serviços operacionais, monitorizando o desempenho, trabalhando com o mercado e promovendo a adoção de aplicações baseadas em Galileo.

“Os satélites podem ser a parte mais visível de um programa espacial como o Galileo, mas estes são apenas uma das componentes de um sistema complexo que inclui a infraestrutura terrestre e muito trabalho de engenharia de sistemas”, explica Tiago Roque Peres, gestor de programas de Navegação por Satélite da Agência Espacial Portuguesa, sublinhando “o papel fundamental da indústria portuguesa”. “Neste contexto, é difícil associar um satélite em concreto ao trabalho desenvolvido por cada país, mas, no caso de Portugal, os contributos fazem-se sobretudo na avaliação da performance do sistema e no apoio à engenharia e à operação diária do Galileo; mas também, com olhos postos no futuro, na simulação e teste de sinais para a segunda geração de satélites.”

 

Contributos portugueses

 

A GMV, por exemplo, integra o programa Galileo há mais de duas décadas. Além de garantir parte das operações da constelação atual, a empresa está igualmente envolvida na segunda geração do sistema. A partir de Portugal, a GMV é responsável pelo G2RFCS (Radio Frequency Constellation Simulator), o simulador de radiofrequência que permite à ESA gerar e analisar os sinais da segunda geração, testar satélites e recetores e apoiar atividades de experimentação, definição e preparação operacional. Trata-se de uma ferramenta crítica para assegurar que a próxima geração de satélites Galileo mantenha e reforce os padrões atuais de precisão, segurança e resiliência.

“A participação da GMV no Galileo representa um compromisso contínuo com a autonomia europeia na navegação por satélite. Através do trabalho desenvolvido a partir de Portugal, contribuímos diretamente para a inovação tecnológica do sistema, garantindo que a próxima geração do Galileo continue a ser uma referência mundial em precisão, segurança e resiliência”, diz Teresa Ferreira, Diretora de Navegação na GMV em Portugal.

A par da GMV, a Deimos Engenharia assegura, a partir de Portugal, uma parte do apoio técnico à arquitetura global do sistema Galileo. A empresa trabalha há vários anos no Independent Orbit and Clock Estimation (IOCE), uma das componentes do Galileo System Evaluation Equipment (GALSEE). A precisão do sinal que chega aos recetores dos utilizadores depende, em grande medida, da qualidade com que são estimadas as órbitas e os relógios dos satélites. O trabalho desenvolvido em Portugal contribui para que o sistema mantenha o nível de desempenho que hoje distingue o Galileo e para a introdução de novas funcionalidades e serviços, entre os quais o serviço de alta precisão (High Accuracy Service). “Esta funcionalidade do sistema garante o desempenho global do Galileo e o recetor de alta precisão é uma expressão prática para o utilizador das vantagens que o Galileo tem face ao GPS”, refere Nuno Ávila, diretor da Indra Deimos (ex-Deimos Engenharia).

Do lado das infraestruturas, o envolvimento português estende-se até ao Atlântico. Na ilha de Santa Maria, nos Açores, a estação de rastreio da ESA, gerida pela portuguesa Thales Portugal, integra uma rede global e será a primeira a receber telemetria em tempo real do Ariane 6 após o lançamento, acompanhando a trajetória do foguetão rumo à órbita terrestre média. No Teleporto de Santa Maria, está igualmente instalada uma Galileo Sensor Station, que faz parte da infraestrutura terrestre mundial do sistema e monitoriza a qualidade dos sinais, os relógios e a posição dos satélites em órbita.

Autor
Agência Espacial Portuguesa
Data
16 de Dezembro, 2025