Santa Maria quer receber de volta a ciência que se faz no espaço
O Atlantic Space Hub 2026 reuniu em Santa Maria investigadores, agências e empresas para discutir como manter vida e saúde fora da Terra e como trazer essas experiências de volta
O oceano em redor, a baixa densidade de tráfego aéreo e o alinhamento com as rotas de quem regressa da órbita terrestre, fazem da ilha de Santa Maria um dos locais do Atlântico onde uma nave espacial pode voltar do espaço com maior garantia de segurança, e quem o diz são as empresas que estão hoje a construir essas naves. Durante quatro dias, a ilha foi palco do Atlantic Space Hub: Designing the Future of Space 2026, evento que reuniu cerca de uma centena de participantes vindos da Austrália, da Turquia, dos Estados Unidos da América e de diferentes países europeus. A conferência, que decorreu entre 22 e 25 de julho em Vila do Porto, procurou ligar as duas pontas de uma missão espacial: a investigação sobre como manter e melhorar a vida e a saúde na Terra e no espaço, a bordo das estações espaciais e dos veículos que trazem de volta estas experiências, e discutir o que ainda falta para fechar esse ciclo a partir dos Açores.
A ilha já comunica com satélites e recebe os seus dados. O Atlantic Spaceport Consortium prepara ali um porto espacial, entre outras atividades que estão a ser programadas, que acrescenta a Santa Maria as operações de lançamento, enquanto a Agência Espacial Europeia (ESA), em parceria com a Agência Espacial Portuguesa, avança com a infraestrutura para receber o veículo orbital Space Rider a partir de 2028. A ATMOS Space Cargo, que obteve a primeira licença de reentrada emitida na Europa, pretende trazer de volta um veículo ao largo da ilha em 2027. A mesma expetativa têm a Orbital Paradigm e a Space Forge, esta última já com escritório na ilha.
Este esforço responde a uma necessidade já identificada pela Europa. Na abertura da conferência, Angelique Van Ombergen, cientista-chefe de Exploração na ESA, apresentou o plano europeu de exploração espacial até 2040, com três destinos: órbita baixa, Lua e Marte, e o retorno de carga entre as capacidades estratégicas que a Europa quer garantir.
O Space Rider foi um dos casos concretos, com condições de microgravidade de altíssima qualidade e vagas para payloads ainda por preencher. O debate com operadores comerciais, moderado por Inês d’Ávila, gestora de programas de Transporte e Segurança Espacial da Agência Espacial Portuguesa, foi o mais participado do dia e revelou que ainda existe uma distância entre a oferta de soluções e a procura por parte dos investigadores que querem colocar as suas experiências em órbita.
Nos dois dias seguintes, a conferência mudou de escala, do veículo para a célula, fixando-se no que se ganha ao levar biologia ao espaço. Passaram pela sala os organoides, réplicas de tecido humano cultivadas em laboratório e expostas à radiação, os modelos digitais que replicam a fisiologia de cada astronauta e a procura de vida fora da Terra. Pelo meio, os microrganismos das fontes termais dos Açores, estudados pelo investigador Duarte Toubarro, da Universidade dos Açores, como matéria-prima para produzir vitaminas, reciclar nutrientes e sustentar vida em missões longas.
Para Afshin Beheshti, diretor do Centro de Biomedicina Espacial da Universidade de Pittsburgh, o encontro deixou à vista “o potencial único de Santa Maria para a investigação espacial, da engenharia e das operações de missão à biomedicina”.
A última tarde de trabalhos devolveu a conversa ao concreto. O financiamento foi apontado como o principal travão para tornar a investigação espacial uma prática corrente, já que os fundos públicos e académicos não bastam para generalizar esta opção. Em Portugal, a Agência Espacial Portuguesa criou o programa PROSSE, que, em parte, responde a essa dificuldade. Criado no âmbito do PRODEX da ESA, este concurso financia projetos de investigação na área da exploração espacial. Entre 2023 e 2025, já foram apoiados seis projetos, dos quais quatro foram apresentados na conferência. Globalmente, investigadores e empresas são unânimes em sugerir uma solução de financiamento que reúna agências, operadores de estações comerciais e empresas privadas.
Atualmente, parte do equipamento a bordo da Estação Espacial Internacional tem até 30 anos e está muito aquém do que existe num laboratório em terra; ao mesmo tempo, a passagem para estações comerciais vai encarecer o tempo de tripulação. A automação surgiu no debate como uma possível resposta a este dilema. “É este tipo de reflexões que procuramos fazer com a conferência Atlantic Space Hub. Juntamos especialistas de várias áreas que nunca se reuniram para debater estes temas com tempo para isso. Não quer dizer que se encontre a solução, mas estimula-se o diálogo entre pares”, sublinha Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, que presidiu à sessão de abertura.
Num encontro montado à volta da biomedicina espacial, acabou-se por discutir, sobretudo, duas coisas que ninguém tinha posto no programa: como normalizar os formatos das cargas úteis, à semelhança do que os CubeSats fizeram pelos satélites pequenos, e como pôr equipas que hoje trabalham em paralelo a partilhar dados.
Esta reflexão foi novamente salientada por Hugo André Costa, diretor executivo da Agência Espacial Portuguesa, que moderou, em conjunto com Afshin Beheshti e Rodrigo Coutinho de Almeida, cientista na Agência Espacial Europeia, a sessão de balanço. “Vimos surgir, nestes dias, uma discussão que não estava no programa. Quem constrói equipamento e quem faz ciência precisam das mesmas regras para trabalhar juntos, e essas regras ainda não existem”, afirma Hugo André Costa. “Com a expectativa de termos três estações privadas a serem lançadas nos próximos anos, é importante que se encontre uma base comum de trabalho para que a ciência possa ser feita de forma igual em cada uma delas e seja agnóstica em relação à estação. Será importante que Portugal esteja onde essas regras serão escritas ou até mesmo que seja o facilitador dessas discussões”, conclui.
No sábado, a conferência abriu-se à comunidade de Santa Maria, com a sala do Atlântida Cine a encher para ouvir Matthias Maurer, astronauta da Agência Espacial Europeia, falar da sua experiência de voo, e Kate Rubins, antiga astronauta da NASA, voltou à investigação, com o que a biologia do voo espacial já ensinou sobre a saúde humana a bordo da Estação Espacial Internacional.
O responsável pela comissão científica da conferência resume o balanço em duas frases. “Colegas dos Estados Unidos, da Europa e de outras partes do mundo ficaram impressionados com a infraestrutura, a competência e as oportunidades da ilha. Esta reunião marcou um passo importante rumo a uma nova era de investigação e inovação espaciais em Santa Maria.”
O Atlantic Space Hub: Designing the Future of Space 2026 foi organizado pela Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh e pelo Trivedi Institute for Space and Global Biomedicine, com a comissão científica a cargo de Afshin Beheshti, diretor do Centro de Biomedicina Espacial da Universidade de Pittsburgh, e Rodrigo Coutinho de Almeida, cientista na Agência Espacial Europeia. O evento, que teve a Agência Espacial Portuguesa como anfitriã, foi patrocinado pela empresa japonesa Otsuka Pharmaceutical.