Portugal instala telescópio solar no Observatório do Paranal para estudar exoplanetas
O PoET, telescópio concebido e desenvolvido pelo IA, realizou as primeiras observações solares no Observatório do Paranal, no Chile. O novo instrumento vai ajudar a compreender a forma como a atividade das estrelas interfere na deteção de exoplanetas.
No deserto do Atacama, no norte do Chile, a altitude, a baixa humidade e a estabilidade da atmosfera fazem do Observatório do Paranal um dos lugares mais privilegiados do mundo para observar o cosmos. Foi aí que, no início de abril, um telescópio feito em Portugal apontou pela primeira vez ao Sol. Não foi um gesto simbólico: foi o culminar de anos de trabalho de engenharia, desenvolvido de raiz pelo Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), que concebeu, construiu e instalou o PoET (Paranal solar ESPRESSO Telescope, ou, em português, Telescópio Solar do ESPRESSO no Paranal), num dos observatórios astronómicos mais prestigiados do mundo, o complexo do Observatório Europeu do Sul (ESO, na sigla em inglês).
Da conceção à operação, o PoET é obra do IA, que desenvolveu o hardware e o software em Portugal com o envolvimento das equipas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto (CAUP4)/FCUP. Ainda que algumas componentes tenham sido fabricadas em Portugal, o telescópio principal foi produzido em Itália e a cúpula foi feita por uma empresa chilena — mas a arquitetura, a inteligência e a coordenação do projeto são portuguesas.
O instrumento tem 60 centímetros de diâmetro e observa regiões específicas do Sol, manchas solares individuais, estruturas magnéticas e zonas de atividade intensa. Em simultâneo, um segundo telescópio mais pequeno capta a luz de todo o disco solar. Os dados percorrem quase 75 metros de fibra ótica até chegar ao ESPRESSO, um dos espectrógrafos de maior precisão do mundo, instalado no Very Large Telescope (VLT) do ESO.
É uma cadeia de precisão, pensada para responder a uma pergunta fundamental: o que é que o Sol nos pode ensinar sobre outras estrelas e sobre os planetas que as orbitam? A maioria dos exoplanetas (planetas situados fora do nosso Sistema Solar) é descoberta através de variações subtis na luz das estrelas, dizem os investigadores do IA citado em comunicado. Mas essas estrelas não são objetos passivos, estando sujeitas ao chamado “ruído estelar” que pode imitar, ou esconder, sinais de planetas. Como explica Nuno Cardoso Santos, Investigador Principal do PoET, citado em comunicado do IA: “Um dos maiores desafios na procura de outras Terras é o ‘ruído’ astrofísico gerado pelas próprias estrelas hospedeiras. As observações do PoET poderão ser fundamentais para revelar e caracterizar exoplanetas que, neste momento, podem estar escondidos nesse ruído”.
Até agora, não havia forma eficaz de separar esse ruído do sinal de um planeta. Por ser a estrela que melhor conhecemos, e a única que podemos observar com detalhe, é o lugar certo para aprender a ler esse “ruído”. “Vamos usar o Sol quase como uma cobaia para tentar perceber outras estrelas”, sublinha Alexandre Cabral, professor da Ciências ULisboa e responsável pela equipa de Instrumentação e Sistemas para Astronomia do IA, em comunicado. O que se aprender aqui será aplicado ao estudo de estrelas distantes e, potencialmente, à descoberta de outros planetas.
O PoET opera agora de forma automatizada e é controlado remotamente a partir do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto. Os dados solares recolhidos pelo PoET e analisados pelo ESPRESSO serão depois disponibilizados à comunidade científica internacional através do arquivo de Ciência do ESO – tornando este instrumento português numa ferramenta de uso global.
O projeto insere-se numa estratégia integrada, tendo o PoET sido financiado pelo projeto FIERCE, do Conselho Europeu de Investigação, cujo objetivo central é resolver o problema do ruído estelar que limita a deteção de exoplanetas. Essa estratégia não é alheia à subscrição de Portugal às missões PLATO e ARIEL através da Agência Espacial Europeia (ESA).
“O PoET é parte de uma estratégia a longo prazo. Os resultados científicos do projeto FIERCE serão essenciais para missões em que Portugal está já comprometido, como a PLATO e a ARIEL. E isto quer dizer que o IA não está a construir instrumentos isolados, mas sim conhecimento que serve toda uma geração de telescópios e missões”, afirma Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa.




